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quinta-feira, 22 de março de 2018

Por que o Brasil de Marielle importa tanto?


Nos últimos cinco anos assistimos diversas mudanças no comportamento da sociedade brasileira, especialmente após as manifestações ocorridas em 2013. De lá para cá, muita coisa aconteceu, mas, de imediato, a impressão geral era de que tudo havia voltado à "normalidade", ou seja, à velha postura geral, de desinteresse pela coisa política e das ações que interferem na vida de todos.

Só que nos últimos tempos, especialmente após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, ocorrido em 2016, a população brasileira tem dado sinais de que de fato, todos estamos, mesmo que de maneira totalmente equivocada, envolvidos e participando das questões políticas. Nos últimos meses teve início uma verdadeira enxurrada de postagens, opiniões e diversos tipos de casos de envolvimento político, por parte da população comum. Cada um expressando seus posicionamentos e dando início a um embate ideológico entre as chamadas direita e esquerda. O que quero analisar aqui, não é a validade ou não, de candidato A, B ou C, mas sim, a atitude da população, em sua relação com a política e os possíveis impactos disso, inclusive nas relações democráticas globais.

Me parece que o surgimento dos atuais candidatos de extrema direita, deram nova voz a uma parcela da população que, desde o fim da infame ditadura civil-militar (1964-1985), esteve recolhida aos seus "guetos", onde eles não puderam externar livremente seu posicionamento, inclusive de apologia abertamente nazi-fascista. Acontece que, após a oficialização de um candidato, que prega abertamente, seus discursos de ódio contra grupos específicos da sociedade, essa população, até então "marginalizada", sentiu que de repente, poderia falar e tal qual ocorreu com a chamada esquerda, no período pós 1985, agora eles podem respirar livremente e soltar seu grito reprimido por tanto tempo.

Na última semana, o fatídico episódio do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, fez com que vários setores da sociedade externassem seus posicionamentos ideológicos, via redes sociais e também nas ruas pelo país. Eis que, de repente, ouviu-se a voz de policiais, juízes, desembargadores e uma grande leva de pessoas, que nem sequer sabiam de fato, de que se tratava todo aquele alvoroço. Foi possível observar como é que as pessoas, inclusive aquelas que são responsáveis por zelar pela segurança da população, julgar, ou legislar, pensam no mais profundo de seus subconscientes. Até então, havia no senso comum, a ideia de que essas pessoas não externavam seus pontos de vista, justamente por conta de suas posições ou cargos.

Agora ficou bem claro, para o mundo todo ver, como é que o Brasil funciona de fato. A hipocrisia que todo brasileiro conhece desde cedo, agora foi escancarada sob a luz da liberdade de expressão. Os últimos dois ou três meses, trouxeram à baila, o DNA da formação do povo brasileiro, com todo o seu rancor, diferenças sociais, e claro, a sua beleza também. Entre as muitas manifestações de intolerância, também foi possível assistir e ler que há uma parcela da população que já conseguiu dar o salto qualitativo e se desprender do ranço da mentalidade escravista, da hipocrisia religiosa e passar a lidar e conviver com a diferença de forma mais harmoniosa. Daqui por diante, é possível que tenhamos uma mudança, para melhor nesse sentido, da tolerância e do respeito àquele que pensa de maneira diferente do grande rebanho.

Porém, ainda existem fatos que podem nos levar a uma leitura pessimista para o Brasil no século XXI. Parece que estamos diante de uma grande mudança e, grandes mudanças quase sempre acontecem depois de cataclismos. A própria história brasileira é repleta de eventos que foram catastróficos e precederam mudanças radicais. É possível que tenhamos inclusive, que enfrentar uma guerra civil, que não seria boa para ninguém, mas, diante do porte das divergências que se evidenciam, é possível que essas diferenças só possam ser resolvidas através do caos absoluto, afinal, estamos diante de ódios e diferenças seculares que sempre foram mascaradas, em nome da "boa convivência" geral. Existe muita intolerância que foi encoberta por séculos, sob o manto da hipocrisia e, é justamente esse fenômeno que, talvez tenha chegado o momento do Brasil encarar de frente, para só então superar e seguir adiante. Mas qual será o preço a se pagar, por essa metamorfose social?

A intolerância racial, por exemplo, demonstra que os quase quatrocentos anos de sistema escravista não ficaram limitados ao contexto do século XIX, quando a escravidão foi tornada ilegal. Ela ainda persiste, inclusive no âmago de nossas instituições governamentais e inclusive a nossa cultura é permeada pela mentalidade escravista e escrava. Ainda somos uma nação muito jovem e, como tal, ainda estamos nos acostumando com o novo, ou seja, com o modelo diferente daquele que fundou toda a nossa forma de ser, enquanto nação. Essas palavras, já não são mais algo a ser desvendado por cientistas sociais ou filósofos, o senso comum já está de posse dessas informações e já construiu o seu ideário. Aqui a internet cumpriu e cumpre seu papel muito bem. Resta entendermos agora, quais serão os processos para se chegar à concretização desse país ideal, que sempre fez parte dos desejos mais profundos de sambistas, escritores, artistas e de qualquer um que queira compartilhar um lugar saudável para se viver.

Mas, por que essas mudanças importam tanto? Porque a meu ver, será do modelo criado a partir dos escombros desse Brasil em que vivemos hoje, que o mundo vai direcionar seu modelo democrático. Sim, estou sendo bastante pretensioso em minha análise, pois, acredito que o modelo democrático atual, tenha muito a aprender com as experiências brasileiras. As maiores potências globais da atualidade não têm interesses apenas e tão somente exploratórios, sobre o Brasil. Penso que podemos demonstrar ao mundo como se cria uma nação, com mais justeza, essencialmente por sermos jovens e ainda termos inúmeras opções pela frente. Somos uma espécie de laboratório para a democracia global.

É possível que essa nova sociedade brasileira já tenha se iniciado, bem debaixo dos nossos olhos, porque os eventos atuais demonstram que vivemos um período de disputa intensa, mas também é fato que qualquer um dos lados, aos ser vencido, não se dará por derrotado e é possível que esse seja o começo dessa mudança radical. Podemos fazer milhares de ilações sobre a influência internacional, nas próximas decisões políticas, mas há uma grande vontade, especialmente entre os mais jovens, de modificar o atual cenário, onde as instituições estão se desintegrando e os representantes públicos já não são capazes de responder aos anseios das diferentes populações. Vivemos em um tempo onde o modelo já moribundo, se mantém apenas pelas conveniências de grupos que ainda detém o poder econômico, mas é possível que esse modelo também esteja com seus dias contados. Assim sendo, acredito que é uma questão de tempo, até o próximo jovem genial surgir para apresentar ao mundo um novo esquema, onde essas regras atuais não farão o menor sentido.


Rubens Almeida é professor de Filosofia da rede pública de ensino paulista, desde 2006.




quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Cidadão Boilesen


Henning Albert Boilesen foi um empresário dinamarquês radicado no Brasil, acusado por militantes de esquerda de ser um dos financiadores da Operação Bandeirante, de ensinar técnicas de tortura e de ser agente da CIA. Foi justiçado (assassinado sem direito a julgamento), em 15 de abril de 1971, na cidade de São Paulo. 

Henning Boilesen foi uma pessoa muito influente na indústria brasileira, durante a época da ditadura militar, tendo participado da fundação do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), foi presidente da Ultragás e do Rotary Clube. Também foi um dos primeiros grandes empresários a financiar o aparato político-militar brasileiro, que torturou e matou em São Paulo, por meio da Operação Bandeirante (OBAN), que viria a ser o embrião do modus operandi dos DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações-Coordenação de Defesa Interna). 

Boilesen foi executado a tiros, por militantes de duas organizações de esquerda, na manhã de 15 de abril de 1971, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Seus executores dizem que o escolheram como exemplo para um justiçamento, acusando-o de ajudar no financiamento da repressão e de assistir a sessões de tortura de presos políticos. Dizem também que Boilesen gozava da intimidade dos agentes de segurança da OBAN e que haveria até um instrumento de tortura conhecida como Pianola Boilesen, em homenagem ao empresário, que trouxe do exterior, uma máquina de eletro-choque acionada por teclado.

O documentário Cidadão Boilesen de Chaim Litewski, montado por Pedro Asbeg, conta a história do empresário. O documentário afirma que Boilesen era um cidadão marcado pelas ambiguidades e paradoxos, típicos dos seres humanos. O filme vai até a Dinamarca, visita os arquivos de histórico escolar, da escola onde Boilesen estudou quando criança e adolescente, no início do século passado; além de entrevistar amigos, colaboradores civis e militares do empresário, seu filho mais velho, o cônsul americano em São Paulo na época dos acontecimentos e um dos militantes que participaram da morte do empresário. Contém ainda, depoimentos de figuras como o ex-Presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, o ex-governador de São Paulo, Paulo Egídio Martins, do coronel Erasmo Dias e do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, entre outros personagens importantes da época. O filme debate fartamente o hábito do empresário de assistir as sessões de tortura, confirmado por testemunhos de militares e militantes da época.

Fonte: Wikipedia


domingo, 19 de fevereiro de 2012

A História do Brasil


Excelente aula de História do Brasil, com o professor Boris Fausto, desde a chegada dos portugueses até o governo do presidente Lula, eleito pelo voto direto, em 2002. Este documentário aborda de maneira bastante didática vários fatos que contribuíram para a formação da nação brasileira, em seus pouco mais de 500 anos de existência.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dr. Sócrates (1954-2011)


Por Rubão Almeida

Existem dias que começam antes da meia noite, e hoje começou ontem, quando eu ví na televisão uma notícia sobre o extremamente debilitado estado de saúde de Sócrates, o ex jogador do Corinthians. Imediatamente algo me dizia que aqueles seriam os últimos momentos do Doutor, como era conhecido pela maioria daqueles que o viram dar espetáculos, em seus jogos com a camisa do Timão e da seleção brasileira.

Acabei acordando hoje, com a notícia do falecimento do Dr. Sócrates, às 4:30 da manhã, e logo percebí que este seria um dia diferente, daqueles para entrar para a história. Tudo porque hoje era o dia em que o Corinthians iria decidir o Campeonato Brasileiro de 2011, com o rival histórico, o Palmeiras. E no caso de conquista do título, seria um dia triste, mas que ficaria marcado na história do clube, como o Dia de Sócrates, pela conquista do brasileirão.

E assim foi, o Timão chegou ao seu quinto título brasileiro, para a glória máxima de um de seus maiores ídolos, que foi como um maestro na regência de sua orquestra. O time apresentou um futebol, que está longe de ser comparável àquele em que o Dr. jogou, em sua gloriosa passagem pelo Corinthians, mas foi suficiente para garantir o empate contra o Palmeiras e conquistar o quinto brasileirão. A partir de agora, quando contarmos a história do Timão, vamos ter de falar deste dia e lembrar de um dos maiores ídolos da história do clube.

Em diversas redes sociais, pela internet, foram vistas mensagens de homenagem ao doutor, de pessoas que são torcedoras de diversos times, por onde ele jogou, ou simplesmente, de amantes do futebol arte, que assim como eu, aprendeu a admirar o futebol de toda uma geração, que se preocupava apenas em jogar o fino da arte do futebol.

Contemporâneo de gênios como Zico, Júnior, Roberto Dinamite, Éder, Casagrande, entre muitos outros, que fizeram a alegria de milhões de torcedores, que assistiam futebol entre as décadas de 70 e 80, do século XX. Sócrates fez fama ao conquistar os títulos paulistas de 1979, 1982 e 1983, pelo Corinthians, além de ter participado das Seleções que disputaram as Copas de 1982 e 1986, sob a batuta do maestro Telê Santana. Também jogou na Fiorentina, da Itália, no Flmaengo e no Santos, no final da década de 80, onde demonstrou suas jogadas de calcanhar, que se tornaram sua marca registrada, sendo autor de vários gols importantes, como os da seleção brasileira na Copa de 1982.

Sócrates deixará saudades e suas jogadas ficarão na memória de muitos corintianos, por várias gerações, que se lembrarão do dia em que o doutor foi embora, para ver o Timão campeão de um outro plano. Descanse em paz, doutor da bola e parabéns ao Corinthians, pelo seu quinto Campeonato Brasileiro!!


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Personagem: Ricardo Gumbleton Daunt



Túmulo do Dr. Ricardo G. Daunt, no Cemitério da Saudade, Campinas/SP

Por: Anna Gicelle Garcia Alaniz
 
Ricardo Gumbleton Daunt nasceu em Cork, na Irlanda, mais precisamente no Castelo de Kilcascan, de propriedade de seu avô William Daunt, em trinta de agosto de mil oitocentos e dezoito. Era filho primogênito de Richard Gumbleton Daunt e Anna Dixon Raines, de Kirkland. Devido ao sistema de morgadio, sendo o segundo filho de William Daunt, seu pai viu-se excluído da sucessão nos títulos e terras da família, tornando-se capitão do exército inglês. Aos cinco anos, tendo-lhe falecido a mãe, o Dr. Ricardo passou a ser educado pela família desta na Inglaterra.

Existe uma pequena discrepância, em duas fontes documentais, acerca do local de seu nascimento. J. David Jorge[1] em ensaio sobre a cidade de Campinas, indica a localidade de Hull na Inglaterra. Já os registros de seu histórico escolar na Faculdade de Medicina de Edimburgo, indicam Humbleton in East Yorkshire, também na Inglaterra.[2] A família, entretanto, sustenta a versão endossada por vários outros relatos, que situam no castelo de Kilcascan, o local onde o médico veio à luz.

Suas origens parecem perder-se na noite dos tempos da conquista normanda, mas procuraremos reconstruí-las com base nos dados fornecidos por Estêvão Leão Bourroul[3], Salvador de Moya[4] e Sacramento Blake[5], além daqueles do Livro de Ouro[6] organizado por seu neto homônimo, por ocasião do centenário de seu nascimento. Quando, no ano de 1066, Guilherme atravessou o Canal da Mancha e empreendeu a conquista bem sucedida das Ilhas Britânicas, levou consigo os primeiros Daunt a fixar-se em solo inglês, deixando na Normandia uma parte da família, que grafava-se Dauntre, de modo afrancesado.[7] Ao longo dos anos, através dos casamentos, os Daunt foram ligando-se aos De Tracy, de Toddington, e aos Owlpen, de Gloucester. Participaram de batalhas célebres e estabeleceram alianças sempre próximas aos monarcas reinantes.[8]

Durante a Guerra da Duas Rosas, os Daunt apoiaram a Casa Lancaster, da Rosa-Vermelha, ligando-se aos Stowell, de Somerton. Após o período sangrento em que as Casas de York e Lancaster pereceram e propiciaram a ascensão dos Tudor, a situação da família e seus aliados foi-se complicando ano após ano. Católicos ortodoxos, alguns dos Daunt foram surpreendidos pela reforma de Henrique VIII, que foi posteriormente consolidada por sua filha Elizabeth I. Aqueles foram anos de incertezas políticas, conspirações, ameaças de guerras iminentes com a Espanha e a França, não apenas devido à religião, mas à supremacia política da Europa ocidental. Foi durante o reinado de Elizabeth I, que Thomaz Daunt Owlpen de Throckmorton passou à Irlanda, fugindo às perseguições, para ali fixar-se, dando origem ao tronco familiar no qual o Dr. Ricardo viria a nascer.[9]

Identificação do túmulo
A passagem dos Daunt para a Irlanda, deu-se em um período bastante conturbado e marcado pelo estigma das disputas religiosas. Em sua nova terra, a família ligou-se aos O’Connor, de uma longa linhagem de patriotas, descendentes de Roderick O’Connor, o 183o. Monarca Suzerano da Irlanda, que falecera em 1198d.C. O Dr. Ricardo orgulhava-se desse parentesco que incluía Fergus O’Connor, líder cartista e membro do Parlamento em Londres, e Francis Burdett O’Connor, companheiro de Simón Bolívar nas guerras de independência da América Espanhola. Costumava corresponder-se com o neto de Francis, Dr. Thomaz O’Connor D’Arlach, residente em Tarija, na Bolívia, e editor do jornal “La Estrella de Tarija”.[10]

Apesar do caráter migratório da trajetória dos Daunt, o Dr. Ricardo considerava-se irlandês. Talvez porque as origens normandas dos Daunt, o identificassem mais ao povo celta, que dera origem à Irlanda, do que aos saxões da Inglaterra. Considerava-se irlandês e Aristocrata, assim mesmo grafado com maiúscula, conforme costumava fazê-lo em sua correspondência pessoal.

Sua formação deu-se sob a direção do Dr. Isaac Dixon, seu tio materno. Além da “sólida moral cristã”, este parece tê-lo apoiado nos caminhos da medicina. O doutor Ricardo estudara temporariamente nas faculdades de Paris e Viena, mas graduara-se em Edimburgo, bem como acompanhara o curso de Humanidades, em Londres. Devido ao caráter vasto de seus estudos e à habilidade e interesse por expressar-se em diversas línguas, logo adquiriu fama de erudito.[11] “Tinha notavel erudição, não só em Medicina, como em Philosophia, Historia, Sciencias Naturaes e Sociaes, e conhecia muito bem o Latim, Grego, Allemão, Inglez, Celta, Francez, Russo, Hespanhol e Portuguez.”[12]; Afirma-se no Livro de Ouro. Entretanto, esse cabedal de conhecimentos reflete uma longa trajetória de árduos estudos que prolongou-se por sua vida afora. Sempre pesquisando e participando ativamente de Sociedades e Institutos, o Dr. Ricardo cultivava sua erudição com um zelo muito maior do que aquele que dedicava à sua clínica ou a suas propriedades.[13]

Em 2 de agosto de 1841 foi lavrado seu pergaminho de Doutor em função da tese defendida que versava sobre inflamações agudas. Chegando ao Rio de Janeiro em 1843, após uma passagem pela África do Sul, defendeu publicamente perante a Faculdade de Medicina nova tese que lhe possibilitou o exercício da clínica no Brasil, conforme exigências legais. Clinicou em Macaé, mas acabou por radicar-se na Província de São Paulo. Em 24 de Abril de 1850 foi expedida a carta de naturalização, que o transformou em cidadão brasileiro.

Como membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde algumas de suas cartas ainda são conservadas nos arquivos, desenvolveu uma atividade prolífica entrevistando pessoas idosas à procura de memórias sobre a origem de usos, costumes, palavras e sobre o passado das famílias paulistas. Genealogista obcecado, entregou-se à paixão de localizar, identificar e remeter ao Instituto, manuscritos setecentistas que foram elaborados por Pedro Taques, entre outros.

Sua dedicação como erudito, de certo modo, igualava sua pertinácia como conservador. Do mesmo modo, seu catolicismo ferrenho levava-o constantemente à crítica da expulsão dos jesuítas, chamando de parvenu ao Marques de Pombal, em uma clara alusão ao enobrecimento tardio por contraposição às suas próprias origens. Afirmava que a educação e a moral da Província de São Paulo encontravam-se em um acelerado processo de decadência, devido ao fechamento das escolas fundadas pelos jesuítas. Crítico implacável das idéias dos jansenistas, reconstituía com freqüência a vida dos padres de Itú, revelando suas fontes e informações, e expressando sua frustração com o estado das tradições e do ensino na cidade e na Província.[14]

Encontrava-se, por ocasião de seus trabalhos como genealogista, que geraram as primeiras correspondências junto ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, residindo na cidade de Itú. Sendo um dos fundadores do partido católico, durante o segundo reinado, dividia igualmente sua paixão entre a clínica, a política e o ofício de historiador amador.

Em Campinas foi tesoureiro da irmandade do Espírito Santo, estava listado entre os lavradores (isto é, proprietários de lavoura), e também como médico e 4o. Juiz de Paz da Paróquia de Santa Cruz. Fora vereador na cidade e tornaria a sê-lo por várias vezes, bem como deputado à Assembléia Provincial, e conquistara sua fama de luminar da medicina, talvez não apenas por sua procedência mas pelo caráter enfático com que sublinhava seus diagnósticos e opiniões.


Residência do Dr. Ricardo, no centro de Campinas/SP
Em 18 de setembro de 1845 casou-se com Anna Francelina de Camargo, filha de Joaquim José dos Santos Camargo, de ilustre família paulista, resultando dessa união seus nove filhos: Haroldo (1846-1886) – foi vigário de Capivari; Torlogo (1847-1909) – era advogado e exerceu vários cargos públicos em Campinas; Fergus (1849-1911) – foi Vigário Geral de São Paulo; Alicia (1851-1933) – embora permanecesse solteira, tivera esmerada educação no Colégio Patrocínio de Itú e veio a herdar-lhe a casa da rua Marechal Deodoro; Briano (?-1889) – era advogado e faleceu solteiro; Winifrida (1857-1928) – teve o casamento arranjado com José de Salles Leme; Fernando (1858-1930) – permaneceu solteiro e não sabemos ao certo se chegou a ter alguma profissão; do mesmo modo, de Cornélio, casado com Anezia de Queiroz Ferreira, a família informou que tendo abandonado a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, dedicou-se ao magistério; Rogério (1862-1914) – era advogado.

A importância do parentesco com os Camargo revelou-se na hora encaminhar seus filhos ao estudo ou conseguir-lhes casamentos vantajosos, bem como de deixar suas duas filhas bem amparadas. O caráter recolhido de sua vida familiar, impossibilita-nos de obter dados sobre a natureza de seu casamento ou da convivência com seus filhos. Tanto seu testamento, quanto o de sua esposa, falecida em 1885, demonstram que apesar de sua mobilidade e inserção social adequada, sua vida permanecera modesta e ao final tornara-se bastante austera. Do estabelecimento de lavoura que, em 1866, contava com mais de vinte escravos, provavelmente herdado de Joaquim José dos Santos Camargo, nada restara.[15] As crises do café e o costume de ser fiador de dívidas de parentes levaram esses bens. Apenas restava-lhes a casa da rua Marechal Deodoro e sua extensão que dava para a rua Sacramento.

Apesar da estima aparentemente mútua entre o Dr. Ricardo e seu sogro, a herança do velho Joaquim não pôde ser aumentada ou bem conservada devido aos reveses econômicos e às disputas familiares. Por ocasião do falecimento do Dr. Ricardo, em 1893, apenas a casa de residência à antiga rua do Imperador, por então e até hoje renomeada Marechal Deodoro, mais quadros, livros e mobília, constituíam o patrimônio que foi dividido pelos sete filhos que lhe sobreviveram.[16]

Anna Francelina de Camargo, passou quarenta anos de sua vida casada com o Dr. Ricardo Gumbleton Daunt, e embora fosse através de sua pessoa que este fora inserido na parentela dos Camargo, e que obtivera uma boa parte dos bens materiais que lhe passaram pelas mãos, pouco ou nada sabe-se dessa senhora. Nos casos de dívidas e execuções, D. Anna tivera seu nome ligado indissoluvelmente ao do marido, e em momento algum fora ouvida quer fosse nos tribunais ou em qualquer outra instância da sociedade civil.

Seu testamento foi realizado no leito, durante a agonia que prolongou-se durante alguns meses. Gravemente enferma, D. Anna Francelina preocupava-se com o bem-estar futuro de seu marido e com a salvação da própria alma. Assim, após vários legados simples em que beneficiava as Paróquias de Conceição e de Santa Cruz, a fim de que fossem rezadas as missas necessárias a bem da paz de sua alma, procurou dispor de sua terça da maneira como achava mais justo e adequado.

Cada legado às paróquias montava a um conto e cem mil réis; duzentos mil réis iam para sua neta Alfrida, filha de Torlogo O’Connor Paes de Camargo e Dauntre, seu segundo filho; o remanescente da terça, em partes iguais, ia para seus filhos Fernando e Alice, e seria parte da casa de residência da família à rua do Imperador, número dez; deixa claro que esta casa era uma doação que seu pai lhe havia feito e que, portanto não entrara para a comunhão de bens do casal, mas institui seu marido como meeiro e deixa-lhe a metade do imóvel.[17]

O Dr. Ricardo, por sua vez, faleceu em 7 de junho de 1893, apenas dois meses após a confecção de seu próprio testamento. A causa mortis dada pelo Dr. Domingos de Azevedo em seu atestado de óbito, foi “syncope”; ou seja uma síncope ou ataque qualquer de natureza desconhecida. Para um homem temperamental, ativo e contando com setenta e três anos de idade, esse tipo de morte súbita e fulminante, à época, tanto podia tratar-se de um acidente cardiovascular, como vascular-cerebral, ou, ainda, apoplexia ou catalepsia.

Seu testamento indica que, ao falecer, o Dr. Ricardo Gumbleton Daunt, encontrava-se em situação econômica quase análoga à de sua chegada ao país. A casa em que residia deveria passar diretamente aos herdeiros, uma vez que fora de sua falecida esposa, seus bens reduziam-se a quadros, livros, algumas ações da Companhia Mogyana, pouca prataria e móveis em geral, de onde foi tirada a legítima que coube a cada um de seus filhos vivos, que por então eram sete. Dois legados apenas no testamento, cento e oitenta mil réis destinados à celebração de sessenta missas, cinqüenta para as almas de todos aqueles que tinham sido seus escravos, e dez para sua própria alma; e um conto de réis para o “creoulo” Huberto, filho de Eva que fora sua escrava.

Há no testamento uma dívida confessa de oito contos e quinhentos mil réis, do Dr. Ricardo em relação a sua filha solteira D. Alice. O texto especifica que se trata de dívida e não de legado e justifica como pagamento pelos serviços prestados na administração da casa, desde a doença de sua mãe. D. Alice, que foi por ele designada para testamenteira, cumpriu escrupulosamente cada legado e saldou todas as dívidas; do montante remanescente, cada filho sobrevivente recebeu dois contos e quarenta e dois mil quinhentos e quarenta e nove réis, como legítima.

Morte súbita, o testamento indicava o desejo de um enterro simples... Mas não foi assim. Embora o documento fosse claro, a família despendeu a quantia de 1:678$800 (um conto e seiscentos e setenta e oito mil e oitocentos réis) com o serviço funerário, caixão, féretro, etc., etc. Considerando a simplicidade de seu inventário, essa quantia chama a atenção. Talvez seus filhos estivessem cônscios da importância do velho médico para a cidade e não quisessem de modo algum que o despojamento ostentado em sua última vontade fosse traduzido a olhares contemporâneos como miséria ou indiferença. Quem pode saber?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 – JORGE, J. David. Campinas (Contribuição Histórica). Boletim do Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo, São Paulo, 13: 63-143, 1954. pp.138-139.
2 – Edinburgh University Library. Special Collections. “1841 - Medical Examination Vol.1”. pp.1v-2.
3 – BOURROUL, Estevam Leão. O Dr. Ricardo Gumbleton Daunt: 1818-1893. Ensaio Biographico. São Paulo, Typ. a Vapor Espíndola, Siqueira & Comp., 1900.
4 – MOYA, Salvador de. Annuario Genealogico Brasileiro. 1o. anno. São Paulo, Revista dos Tribunaes, s.d.
5 – SACRAMENTO BLAKE, Augusto Victorino Alves. Diccionario Bibliographico Brazileiro. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1902. v7.
6 – O Livro de Ouro de Ricardo Gumbleton Daunt. 1818-1918. Primeiro Centenário de seu Nascimento. São Paulo, Officinas Graphicas Cardozo Filho & C., 1918.
7 – Vale a pena ressaltar que, ao batizar seus nove filhos, o Dr. Ricardo optou por essa grafia, sendo o Daunt retomado apenas por seus netos.
8 – BOURROUL, Estevam Leão. Op. cit. p.2.
9 – BOURROUL, Estevam Leão. Op. cit. p.3.
10 – BOURROUL, Estevam Leão. Op. cit. pp.4-5. Vide também Arquivo do IHGB, DL180.45 e DL677.2.
11 – BOURROUL, Estevam Leão. Op. cit. pp.13-15.
12 – O Livro de Ouro.... Op. cit. p.27.
13 – Arquivo do IHGB DL321..23 pp. 10-11-41-42.
14 – Arquivo do IHGB. DL.321-23, DL.581-26, DL.180-24.
15 – CMU/AH. TJC. 1O. Ofício. Caixa 181. Documento 3821.
16 – CMU/AH. TJC. 1.º Ofício. Caixa 307. Documento n.º 5939 e CMU/AH. TJC. 3.º Ofício. Caixa 387. Documento n.º 7673 e Caixa 535. Documento n.º 10631.
17 – CMU/AH. TJC. 1.º Ofício. Caixa 278. Documento n.º 5394.

*Anna Gicelle Garcia Alaniz: Professora Doutora em Ciências, na área de concentração de História Social, pela Universidade de São Paulo, hoje lecionando na FAM – Faculdade de Americana. Este texto foi elaborado a partir de uma síntese do capítulo III. DR. RICARDO: O HOMEM, parte integrante da tese = ALANIZ, Anna Gicelle Garcia. Dr. Ricardo Gumbleton Daunt: o homem, o médico e a cidade (Campinas, 1843-1893). Tese de doutoramento defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo, Universidade de São Paulo, 1999, páginas 74-127.

**Fotos por: Rubão Almeida - 2011 

Fonte: Sociedade Brasileira de História da Medicina

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Há 50 anos, Janio Quadros renunciava à presidência da República


por: Renato Cancian

A crise política

O governo de Jânio Quadros perdeu sua base de apoio político e social a partir do momento em que adotou uma política econômica austera e uma política externa independente. Na área econômica, o governo se deparou com uma crise financeira aguda devido a intensa inflação, déficit da balança comercial e crescimento da dívida externa. O governo adotou medidas drásticas, restringindo o crédito, congelando os salários e incentivando as exportações.

Mas foi na área da política externa que o presidente Jânio Quadros acirrou os animos da oposição ao seu governo. Jânio nomeou para o ministério das Relações Exteriores Afonso Arinos, que se encarregou de alterar radicalmente os rumos da política externa brasileira. O Brasil começou a se aproximar dos países socialistas. O governo brasileiro restabeleceu relações diplomáticas com a União Soviética (URSS).

As atitudes menores também tiveram grande impacto, como as condecorações oferecidas pessoalmente por Jânio ao guerrilheiro revolucionário Ernesto "Che" Guevara (condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul) e ao cosmonáuta soviético Yuri Gagarin, além da vinda ao Brasil do ditador cubano Fidel Castro.

Independência e isolamento

De acordo com estudiosos do período, o presidente Jânio Quadros esperava que a política externa de seu governo se traduzisse na ampliação do mercado consumidor externo dos produtos brasileiros, por meio de acordos diplomáticos e comerciais.

Porém, a condução da política externa independente desagradou o governo norte-americano e, internamente, recebeu pesadas críticas do partido a que Jânio estava vinculado, a UDN, sofrendo também veemente oposição das elites conservadoras e dos militares.

Ao completar sete meses de mandato presidencial, o governo de Jânio Quadros ficou isolado politica e socialmente. Jânio Quadros renunciou a 25 de agosto de 1961.

Política teatral

Especula-se que a renúncia foi mais um dos atos espetaculares característicos do estilo de Jânio. Com ela, o presidente petenderia causar uma grande comoção popular, e o Congresso seria forçado a pedir seu retorno ao governo, o que lhe daria grandes poderes sobre o Legislativo. Não foi o que aconteceu, porém. A renúncia foi aceita e a população se manteve indiferente.

Vale lembrar que as atitudes teatrais eram usadas politicamente por Jânio antes mesmo de chegar à presidência. Em comícios, ele jogava pó sobre os ombros para simular caspa, de modo a parecer um "homem do povo". Também tirava do bolso sanduíches de mortadela e os comia em público. No poder, proibiu as brigas de galo e o uso de lança-perfume, criando polêmicas com questões menores, que o mantinham sempre em evidência, como um presidente preocupado com o dia-a-dia do brasileiro.

* Renato Cancian é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais, é autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política -1972-1985".

Fonte: UOL

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sabe com quem você está falando?


Palestra do professor Mário Sérgio Cortella, no Banco do Brasil. Uma pequena explanação para nos fazer pensar um pouco sobre a nossa real importância, dentro de um contexto cosmológico.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Jair Bolsonaro, o deputado racista


Na última segunda-feira (28), o deputado Jair Bolsonaro (PP/RJ), participou do programa CQC, na tv Bandeirantes. Em um quadro em que o público faz perguntas para o entrevistado, o deputado soltou a sua opinião sobre assuntos como cotas raciais, e homossexualidade.

Ávido defensor da ditadura militar e fã dos generais Médici, Geisel e Figueiredo, o deputado acabou criando polêmica, ao ser perguntado pela cantora Preta Gil, o que ele faria se um filho dele se apaixonasse por uma negra. Destilando todo seu preconceito, o deputado chamou esse tipo de relação de "promiscuidade" e diz ter educado os filhos longe de "ambiente, como lamentavelmente" é o dela.

Deixo aqui, total repúdio a esse tipo de político, com a mesma mentalidade escravista, preconceituosa e imbecil, que desgraçadamente ainda tem gente que insiste em passar adiante, afinal, ele foi eleito por uma parte da população brasileira, que ainda se sente órfã de porcarias como TFP, Militarismo, Tortura, Repressão, Censura, etc. Nas próximas eleições, não esqueça o SOBRENOME desse sujeito, pois, além dele, já tem os descendentes pendurados nas tetas do governo.

Abaixo o vídeo da infeliz entrevista.

segunda-feira, 14 de março de 2011

De Deodoro a Dilma: especial do Estadão

Vale a pena dar uma conferida no especial, (De Deodoro a Dilma), lançado pelo jornal Estadão, que mostra a trajetória política do Brasil, nestes pouco mais de 120 anos de República. É uma boa dica de pesquisa, para quem deseja saber ou compreender um pouco mais, os fatos que marcaram o Brasil, desde Deodoro da Fonseca, até a atualidade, passando por episódios, como a Guerra de Canudos, Lampião e o Cangaço, a Revolução Constitucionalista de 1932, o Estado Novo de Getúlio Vargas, a Ditadura Militar e outros fatos importantes.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Decanos Brasileiros: Fábio Konder Comparato

Neste episódio da série "Decanos Brasileiros - Dez Visões Sobre a Democracia no País", o jurista Fábio Konder Comparato analisa a vida política do país nos últimos 60 anos.

Fonte: Estadão

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Bandeira de município causa discórdia no MS


O pastor Adilson Machado, de uma igreja evangélica de Sidrolândia/MS, a 70 km de Campo Grande, entrou com processo na Justiça contra o município para que seja retirada a frase “Ave Maria” da bandeira da cidade.

De acordo com o pastor a frase é constrangedora aos fiéis que não acreditam em imagens. “O tratamento do município deve ser igual a todas as religiões”, disse ele, que afirma que as autoridades não cumprem o Artigo 19 da Constituição, que trata das questões religiosas. Ele acionou a Defensoria Pública do município para exigir da prefeitura a retirada da frase e prometeu "ir até o Supremo, se for preciso".

Uma defensora Pública é quem está responsável pelo processo que foi aberto em novembro do ano passado. De acordo com Adilson, a primeira audiência acontecerá no mês de março.

Abaixo Assinado

Centenas de assinaturas já foram colhidas em um abaixo assinado movido por lideranças evangélicas com objetivo de retirar o “Ave Maria” do brasão do município. Líderes do movimento esperam colher mais de mil assinaturas.


"Recebemos também o apoio de vários ateus que vivem no município e que defendem a mudança", disse o religioso.

O fato de se tratar de uma inscrição antiga, para o pastor, "não é relevante". "Em eventos dentro da nossa igreja, hastear a bandeira do município é sempre um constrangimento. Aquela frase trata de uma devoção que não é a nossa."

"Quem se irrita com o nome de Maria é o diabo", reagiu, em nota, o Conselho Pastoral da Paróquia Nossa Senhora da Abadia.

O texto, no qual o pastor é chamado de "irmão em Cristo", defende que "proclamar o nome de Maria como na bandeira da cidade não se trata de idolatria."

A defensora pública que recebeu a manifestação dos evangélicos está em férias e não foi encontrada.

Conheça o Art. 19 da Constituição.

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

II - recusar fé aos documentos públicos;

III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Polícia reprime manifestação contra aumento da tarifa de ônibus em São Paulo

Todo busão tem um pouco de navio negreiro

Pois é, mais uma vez, a Polícia Militar cumpre muito bem o seu papel de "cachorro raivoso", do poder estatal e, de maneira estúpida e imbecil, reprime uma manifestação pacífica, dos cerca de mil descontentes com o aumento para R$ 3,00, da tarifa de ônibus em São Paulo.

Na tarde da última quinta-feira (13/01), a avenida Ipiranga e ruas adjacentes, foram tomadas pela brutalidade dessa horda de burros chucros. Foram disparados muitos tiros (em tese, balas de borracha) e bombas de gás (que soltam estilhaços). As informações dão conta de que, várias pessoas ficaram feridas e outras foram detidas, além de algumas pessoas que tiveram suas máquinas fotográficas e celulares "confiscados" e tiveram seus arquivos deletados pela PM. Mais uma demonstração do tipo de governo autoritário a que estamos submetidos. E a democracia?

O triste disso tudo, é que os escravos fardados se esquecem, que eles e seus familiares também utilizam o transporte público, e assim como o povão (pois, eles também são do povo), terão uma grande parte de seu salário miserável, sendo gasto com a tarifa exorbitante, para andar no transporte carroceiro que o governo e a prefeitura nos oferecem.

Já está mais do que evidente, que a prefeitura está nas mãos da máfia dos transportes (além de muitas outras máfias, é claro). Como sempre, após o aumento da tarifa dos ônibus, seguirá o aumento do metrô e outros meios de transporte público. Ou alguém duvida disso?

Será preciso resistir e reclamar muito ainda, já que os principais jornais e a TV parecem estar ignorando esses fatos. Aliás, a mídia terá muito trabalho, para entreter a população do Brasil inteiro e manter as pessoas tranquilas e dóceis, fazendo o povo esquecer as tragédias que estão acontecendo nesse início de ano, com todas as enchentes e tudo mais.

Abaixo um vídeo que mostra uma boa parte da confusão, ocorrida no entorno da praça da República. Existem vídeos de manifestações que acontecem em outras cidades também, pois, diferentemente do que a maioria pensa, as pessoas não estão aceitando esses aumentos tão passivamente assim.

REFUSE/RESIST... sempre!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Há 180 anos, Líbero Badaró era assassinado

Foto: Odair Faria/Studio 3X

Neste ano de 2011, pretendo colocar algumas postagens sobre pessoas que tiveram relevância na História do Brasil e, por isso, não devem ser esquecidas. E como primeiro nome a ser lembrado, aqui vai um texto muito interessante que encontrei, sobre a morte de Líbero Badaró.
"Esta é a história de um assassinato. Um caso de intolerância política, pistolagem, cumplicidade das autoridades, foro privilegiado do mandante e impunidade de todos os envolvidos. A vítima, como tantas vezes no Brasil, era jornalista. Mas esse não foi um crime como qualquer outro. Foi o primeiro desse tipo na história do país.

Os restos mortais enterrados no Cemitério da Consolação, em São Paulo, são os do médico italiano e editor do jornal Observador Constitucional, Líbero Badaró. Ele faleceu no dia 21 de novembro de 1830, em consequência dos ferimentos causados pelo tiro de pistola, disparado à queima-roupa pelo imigrante alemão Henrique Stock, a mando do desembargador ouvidor Candido Ladislau Japi-Assú. As 24 horas transcorridas entre a emboscada armada diante de sua casa e sua morte deram-lhe o tempo suficiente para que deixasse seu testamento político e fornecesse as informações que permitiriam à polícia prender o autor do disparo.

O cortejo fúnebre ocupou toda a distância entre sua casa, na hoje Rua Líbero Badaró, e a Capela da Ordem Terceira do Carmo, numa distância de aproximadamente 1,2 km, no atual centro histórico da capital paulista.

A morte de Badaró deixou a cidade de apenas 9 mil habitantes à beira da insurreição e gerou protestos em vários pontos do Brasil. Japi-Assú foi julgado e absolvido por seus pares no Rio de Janeiro, convenientemente longe da cena do crime e da pressão popular. A mesma instância judicial reviu a condenação do pistoleiro, absolvendo-o.

O jornalista

Giovanni Battista Libero Badarò nasceu em 1798, na vila de Laigueglia, perto de Gênova. Seu pai era um médico liberal de extraordinária erudição, como atestam gravuras retratando sua imensa biblioteca. Estudou em Gênova e Bolonha, antes de se formar em Medicina, em agosto de 1825, pela Universidade de Turim. Recém-formado, decidiu ganhar o mundo. Tinha 28 anos, mas parecia mais velho. Era alto e magro, usava longas suíças e óculos de lentes redondas.

Badaró chegou ao Brasil, em 1826, atraído por uma terra que, aos olhos de muitos, já era o país do futuro e uma das poucas nações governadas por um imperador tido como liberal que aceitava livremente a submeter-se a uma Constituição. Ainda no Rio de Janeiro, tornou-se amigo de outro jornalista que se destacava pelas ideias liberais, Evaristo da Veiga. Em pouco tempo, ele e seus correligionários viram suas teses perderem terreno perante o avanço das forças conservadoras, diante das quais o imperador Pedro I, que num dia de glória havia sido aclamado como “Pro­tetor Perpétuo do Brasil”, se isolava e assumia atitudes autoritárias a cada dia que passava.

Badaró chegou a São Paulo no início de 1828. Nessa época, os sinais de que a reação conservadora ganhava força estavam por toda a parte e seus líderes eram cada vez mais truculentos. Mesmo assim, ele lançou, em 23 de outubro de 1829, o seu Observador Constitu­cional – um bissemanário sem anúncios, de 30 cm de altura por 20 cm de largura, quatro páginas e vendido por 80 réis, impresso na tipografia do jornal que já circulava na cidade, O Farol Paulistano, de José da Costa Carvalho, com quem se hospedou, antes de alugar uma pequena casa na Rua São José (atual Líbero Badaró) .

Em São Paulo, os reacionários ocupavam os principais cargos provinciais: o de governador, exercido numa interinidade sem fim pelo vice-governador e bispo dom Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade, o de comandante de armas, coronel Carlos Maria de Oliva, e o de chefe do Poder Judi­ciário, o desembargador ouvidor Candido Ladislau Japi-Assú. Este odiava especialmente Badaró, por tê-lo lançado no ridículo ao induzi-lo a revelar seu ignorante conservadorismo, censurando peças teatrais que não existiam.

Os redutos liberais eram formados por alguns cidadãos que compunham a pequena burguesia, pelos estudantes da ainda incipiente Faculdade de Direito e pela maioria da Câmara Municipal, que chegou a requerer ao governador em exercício que tomasse providências diante do “procedimento anticonstitucional, arbitrário e tirânico do ouvidor”. Apreensivos, seus amigos cuidavam para que não andasse só. Mas foi só que ele voltou para casa naquela noite de 20 de novembro de 1830.

Crime aconteceu na rua que hoje leva seu nome

Líbero Badaró se aproximava de sua casa entre 10 e meia e 11 horas da noite de 20 de novembro de 1830, quando viu dois homens sentados nas proximidades. Na rua escura, iluminada apenas pela lua cheia, perguntaram-lhe se era o dr. João Baptista Badaró. Diante da resposta afirmativa, disseram que vinham de parte do ouvidor. Badaró mal teve tempo de dizer que não era amigo de Japi-Assú quando sentiu no ventre o impacto do tiro de pistola. A bala causou ferimentos internos incuráveis que lhe provocaram uma agonia dolorosa por quase 24 horas, tempo suficiente para que, na presença de testemunhas respeitadas na cidade, fosse interrogado pelo juiz José da Silva Merciana, cujos “autos da devassa” detalhadamente elaborados permitiram à polícia capturar alguns suspeitos.

Ao juiz, Badaró declarou que não conhecia os atacantes, mas pelo sotaque sabia que eram alemães e, indagado se tinha suspeita de quem eram os responsáveis, não hesitou em apontar como mandante o desembargador-ouvidor Japi-Assú. Era mais do que uma suspeita, pois até o escrivão da Ouvidoria, Amaro José Vieira, em seu depoimento posterior ao crime, disse tê-lo advertido diversas vezes que escutara de seu chefe afirmações de que pretendia matá-lo. O que o jornalista não sabia era que seu assassinato foi cuidadosamente planejado e sua execução – segundo pesquisa de Argimiro da Silveira, publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo em 1890 –, começou numa chácara da Freguezia do Braz, quando ao tenente Carlos José da Costa, vindo do Rio para matá-lo, foi indicado o alemão Henrique Stock para acompanhá-lo, identificar e executar a vítima. Badaró faleceu em consequência de hemorragia interna, às 10 horas de 21 de novembro.

A notícia do atentado a Badaró se espalhou rapidamente e a pequena capital da Província de São Paulo viveu dias agitados, com grupos armados percorrendo as ruas exigindo a prisão dos autores e mandantes do crime. Stock e outro alemão logo foram presos, mas o ouvidor se refugiou na casa do comandante militar, de onde só saiu depois de uma negociação com o bispo-governador interino com a participação de outros membros do Conselho e Governo da Província, entre os quais se destacou o mais tarde regente, padre Diogo Antônio Feijó. A pretexto de protegê-lo da ira popular e sob a alegação de que o acusado gozava de foro privilegiado, foi decidido que Japi-Assú seria conduzido ao Rio de Janeiro, não preso, mas sob escolta, para lá ser julgado."

Carlos Alves Müller é assessor da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB)
Líbero Badaró

“(...) Terrível liberdade de imprensa, que clama a uns não matarás, a outros não prenderás, não substituirás o teu interesse ao dos mais; não te servirás de autoridade pública para satisfazer as tuas vinganças, não sacrificarás o teu dever ao poder! Incapazes de resistir à evidência dos argumentos positivos sobre que se apoia a necessidade de imprensa, os amigos das trevas se vestem da capa da moral e do sossego público, apontam os abusos desta liberdade, a calúnia, a difamação, as provocações diárias, os axincalhes continuados, que tornam a vida um suplício. É, meu Deus! Os abusos? E do que se não abusa neste mundo? Forte raciocínio! E porque se abusa de uma qualquer cousa, já, já suprima-se? E aonde iríamos com estas supressões? Um mau juiz abusa do seu ministério: suprima-se a magistratura; um mau sacerdote abusa da religião: suprima-se a religião; um mau marido abusa do matrimônio: suprima-se o matrimônio! Forte raciocínio, dizemos outra vez! Suprimam-se os abusos que será melhor. A lei contra os abusos existe; sirvam-se dela; e se não é boa, faça-se outra; e liberdade a todos de esclarecerem os legisladores, pela imprensa livre (...)”

Texto de autoria de Líbero Badaró, publicado no jornal Observatório Constitucional.

Última frase:

“Morre um liberal, mas não morre a liberdade”

Henrique Stock foi julgado pela Junta de Justiça de São Paulo, que o condenou a “galés perpétuas”, iniciando o cumprimento da pena em Guarapuava, no Sudoeste do Paraná. O julgamento de sua apelação da sentença foi transferido para o Rio de Janeiro e entregue ao Tribunal da Relação, cujos membros, em 18 de junho de 1831, haviam absolvido seu colega Japi-Assú, decisão aplicada também ao alemão acusado de autor material do assassinato.

Líbero Badaró foi o primeiro jornalista assassinado no Brasil em virtude do ofício que exercia e o primeiro caso em que os assassinos, beneficiados por suas relações, viveram o resto de suas vidas na impunidade, apesar das provas que os incriminavam.

Cinquenta e nove anos mais tarde, alguns dias após a Pro­­clamação da República, a ur­­na mortuária do jornalista foi transferida da cripta da Capela do Carmo para o Cemitério da Consolação.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Félix: Brasil tem que se acostumar "com sacos de corpos" voltando da guerra


Natalia Viana, 15 de dezembro de 2010, 18.00 GMT

A frase acima foi proferida pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Armando Félix, para explicar que o Brasil tem que "pagar um preço" se quer ser uma liderança mundial. Segundo o relato do embaixador Clifford Sobel, a conversa se deu em janeiro de 2007, como ele detalhou em um telegrama enviado ao Departamento de Estado às 16:40 do dia 15 de fevereiro de 2007, que será publicado hoje (15) pelo WikiLeaks.

O telegrama secreto descreve um jantar oferecido pelo embaixador a Félix e ao Subchefe-Executivo do GSI, o General-de-Divisão Rubem Peixoto Alexandre. Na pauta, o pedido da diplomacia para que Félix intermediasse um encontro entre a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff e o advogado-geral americano - além da perspectiva do Brasil colaborar com a Otan, aliança militar que inclui países da Europa e os Estados Unidos.

Preço a pagar

"Félix estava relaxado e falando francamente, enquanto Alexandre permaneceu em silêncio durante a maior parte da noite", descreveu Sobel. Ele perguntou sobre os benefícios do Brasil colaborar militarmente com a Otan.

"Felix pareceu circunspecto e disse que os brasileiros devem encarar o fato de que 'um preço deve ser pago' para obter um papel de liderança global. O Brasil deve estar disposto a modernizar e empregar suas forças em operações internacionais e confrontar a perspectiva de 'sacos de corpos' retornando ao Brasil. Félix disse que, tanto pessoalmente quanto como militar, ele acreditava que era chegada a hora do Brasil pagar o preço e assumir a posição de liderança no cenário global", narra o telegrama.

O general diz ainda, segundo o documento, que uma cooperação próxima com a Otan seria vista positivamente pelos militares brasileiros, que compartilham a sua visão.

Venezuela

Durante o jantar o general também voltou a falar do seu desafeto Hugo Chávez. Disse que o venezuelano tinha pouca influência no Brasil, recebendo sempre críticas negativas da imprensa, e que "enquanto os governos vizinhos forem democraticamente eleitos, o Brasil tentará ser compreensivo quanto às suas idiossincrasias políticas particulares".

Felix, interlocutor frequente da embaixada, já tinha deixado clara suas diferenças com o governo em relação à Venezuela durante um almoço na residência do embaixador em 2005 - mas disse preferir se manter alinhado com a posição oficial.

Ele também reclamou da designação da Região da Tríplice Fronteira como alvo do Hezbollah. Desde 2006 o governo americano menciona possíveis atividades terroristas na tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina em seu relatório anual.

Fonte: WikiLeaks

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Uma pedra no meio do caminho

Por Michel Blanco . 14.12.10 - 20h16

Defender a legalização das drogas em meio ao alastramento do crack no país é fazer um pacto com o capeta, certo? Afinal, o pesadelo de pais que se prezem é o filho passar de um pega num baseado para a carreira de cocaína e dali para baforadas finais em um cachimbo da pedra. O temor se fundamenta no pressuposto de que mais pessoas serão tentadas a consumir drogas se legalizadas.

Essa ideia, no entanto, pode ser um equívoco. Leis antidrogas rígidas não garantem boas noites de sono para pais aflitos. Não há correlação entre proibição e redução de consumo. Al Capone que o diga: cidadãos de países onde a legislação é extremamente dura, como os Estados Unidos, se drogam mais em relação a outros. O grande feito do endurecimento legal antidrogas nos EUA é o inchaço da população carcerária – além de bilhões de dólares gastos na repressão, que ajudam a movimentar a cadeia de produção da indústria bélica.

Em contrapartida, a legalização pode reduzir tanto a oferta quanto o consumo. Heresia? Não, legalização não quer dizer oba-oba, mas o contrário. O traficante atua como empresário de um setor ilegal da economia, e como tal busca acumular capital, conquistar mercados, diversificar investimentos e reinvestir em seu ramo principal. O mercado de drogas ilícitas não é oposto à racionalidade capitalista, mas é a versão mais radical de seus valores, que não tolera impedimentos para sua expansão. Vive em autorregulação plena, como desejam alguns setores mais dinâmicos e criativos da economia brasileira. Justamente por ser ilícito, o tráfico de drogas foge de qualquer regulação: não há distinção entre oferta para adultos e crianças, garantia de padrões de qualidade (afinal, cocaína ‘batizada’ com pó de mármore ou algo do tipo causa um estrago a mais) ou advertência sobre os riscos do consumo.

Legalizar pressupõe, obviamente, a ação eficiente do Estado, e sob outra perspectiva, deslocando o problema da esfera policial para a saúde pública. As drogas seriam tributadas e sua produção, regulada; a receita proveniente da atividade (juntamente com a grana economizada com a repressão policial) bancaria campanhas de esclarecimento e tratamento a dependentes. Fornecedores como Fernandinho Beira-Mar ou Elias Maluco seriam substituídos por gente com alguma responsabilidade pública. Muito idealista? Para quem curte pipoco e cassetete, talvez.

Longe da perfeição, tal sistema exigiria fiscalização constante. Mas a política de redução de danos é a solução menos ruim para o problema, ante a constatação do fracasso da simples repressão policial e da falta de evidência de que chegaremos algum dia a um mundo livre de drogas. A defesa dessa mudança de foco ganha adesão em correntes ideológicas diversas. Da esquerda libertária ao liberalismo clássico – há 20 anos está na pauta da revista The Economist, ícone do liberalismo britânico. No Brasil, também começa a crescer o apoio político. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está nessa há um tempo. Agora é o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, quem se diz a favor de debater a legalização de drogas leves, convencido de que “a probição (sic) simples tem gerado muito mais prejuízo do que uma ação inteligente do poder público” (as bobagens que disse sobre aborto não invalidam a percepção de um problema prioritário em sua agenda).

Para ser eficaz, a ação do poder público deve mudar a forma de encarar o narcotráfico. A força do narcotráfico não se desenvolve apenas na violência desenfreada. Sua capacidade de fragmentar comunidades também é resultado das formações e vínculos sociais e culturais que promove em áreas onde predominam a pobreza e o descaso, em meio à incapacidade do Estado de ser agente do bem-estar. O narcotráfico não se trata de um meio de mobilização de poder que percorre unicamente submundos. O enorme potencial de corrupção dos bilhões de dólares que gera permite que percorra salões de governo e transações eletrônicas que saltam em contas bancárias robustas, em mercados de ativos e outras aplicações. Se o narcotráfico corre tão solto como se vê, é porque talvez não esteja confrontando-se com as estruturas de poder vigentes, mas fortalecendo-as. Está aí o elo a ser quebrado.

A legalização, em suma, implica a consolidação de uma política de saúde pública coerente no enfrentamento do uso abusivo de drogas, livre de preconceitos que distinguem substâncias lícitas de ilícitas. Rever o papel regulador do Estado sobre substâncias entorpecentes e enfrentar as drogas como um problema prioritariamente de saúde pública dá a chance de lidar com a dependência química de drogas pesadas como o crack, hoje um problema nacional, de maneira mais adequada.

O mundo fantasioso dos comerciais de cerveja e a prescrição desenfreada de barbitúricos também precisam de um olhar mais atento do poder público. Mas a regulação dos cigarros, embora ainda deficiente ante a criatividade do marketing tabagista, dá alguma esperança: o número de fumantes no Brasil cai a cada ano. E não é demais lembrar que, apesar de muitas drogas ilícitas serem extremamente prejudiciais à saúde, nenhuma rivaliza com a nicotina em potencial de dependência química. Vicia mais do que álcool, cocaína, morfina e… crack.

Fonte: Yahoo!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

MPF quer que Band se retrate por ofensas de Datena contra ateus


NO "BRASIL URGENTE"

Da Redação - 03/12/2010 - 12h38


O MPF (Ministério Público Federal) entrou com ação civil pública da Justiça para obrigar a TV Bandeirantes a exibir durante o programa Brasil Urgente uma retratação pelas declarações ofensivas do apresentador José Luiz Datena contra os ateus.

Durante a exibição de uma reportagem, no dia 27 de julho, Datena e o repórter Márcio Campos relacionaram o crime com pessoas que não acreditam em Deus. “...porque o sujeito que é ateu, na minha modesta opinião, não tem limites, é por isso que a gente vê esses crimes aí”.

Além disso, o apresentador atribuiu os males do mundo aos ateus. “É por isso que o mundo está essa porcaria. Guerra, peste, fome e tudo mais, entendeu? São os caras do mal. Se bem que tem ateu que não é do mal, mas, é ..., o sujeito que não respeita os limites de Deus, é porque não sei, não respeita limite nenhum”, disse.

Em todo o tempo em que a matéria ficou no ar, o apresentador associava aos ateus a ideia de que só quem não acreditava em Deus poderia ser capaz de cometer crimes. Datena ainda debochou dos telespectadores que assistiam ao programa: “Quem é ateu pode desligar a televisão, ou mudar de canal pois eu não faço questão nenhuma de que assistam o meu programa”.

O programa ainda realizou uma pesquisa interativa para saber a opinião da audiência sobre a relação entre violência e ateísmo. Diante de um grande de ligações que não concordavam com a tese do apresentador, Datena disse: “Muitos bandidos devem estar votando do outro lado".

Para o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão Jefferson Aparecido Dias, autor da ação, ao veicular as declarações preconceituosas contra pessoas que não compartilham o mesmo modo de pensar do apresentador, a emissora descumpriu a finalidade educativa e informativa, com respeito aos valores éticos e sociais da pessoa, prestou um desserviço para a comunicação social, uma vez que encoraja a atuação de grupos radicais de perseguição de minorias, podendo, inclusive, aumentar a intolerância e a violência contra os ateus.

“Evidentemente, houve atitudes extremamente preconceituosas uma vez que as declarações do apresentador e do repórter ofenderam a honra e a imagem das pessoas ateias. O apresentador e o repórter ironizaram, inferiorizaram, imputaram crimes, 'responsabilizaram' os ateus por todas as 'desgraças do mundo'”, afirma o procurador.

O procurador ainda ressalta que todos têm direito a receber informações verídicas, não importando raça, credo ou convicção político-filosófica, tendo em vista que grande parte da sociedade forma suas convicções com base nas informações veiculadas em programas de rádio e televisão.

Pedidos

Na ação, o MPF pede ainda que a emissora apresente um quadro com esclarecimentos à população sobre a diversidade religiosa e da liberdade de consciência e de crença no Brasil, com duração de no mínimo o dobro do tempo usado para exibição das mensagens ofensivas. Segundo o MPF, Datena criticou os ateus durante mais de 50 minutos.

A Procuradoria quer ainda que a União, através da Secretaria de Comunicação Eletrônica do Ministério das Comunicações, seja obrigada a fiscalizar o programa.




quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Show grátis da Norah Jones no Parque da Independência

Norah Jones

No próximo dia 14, domingo, a cantora norte americana, Norah Jones fará um show gratuito no parque da Independência, no bairro do Ipiranga, às 16h. A cantora apresenta seu mais recente trabalho, "The Fall" lançado em 2009.


Além do show no Ipiranga, Norah Jones também fará outros shows no Brasil, em Curitiba/Pr (dia 12), Rio de Janeiro/RJ (dia 16) e Porto Alegre/RS (dia 18).


Abaixo uma das músicas desse trabalho, que vale a pena conferir, ainda mais sendo grátis.